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terça-feira, 6 de agosto de 2013

NESTA FOTO TINHA UM PAI

Como Ñasaindy Barrett de Araújo superou um ciclo iniciado em Cuba, onde seus pais a deixaram, antes de serem mortos no Brasil. Criada pela operária Damaris Lucena tinha 11 anos quando chegou a São Paulo com documentos falsos. Levou outros 16 anos para sair da clandestinidade.

Nasaindy em guarani significa "luz da vida". Ñasaindy Barrett de Araújo recebeu o exótico nome dos pais, Soledad Barrett Viedma e José Maria Ferreira de Araújo. Hoje resplandecendo, ela passou boa parte da vida em fase de Lua Nova, aquela que o satélite não reflete a luz do Sol nem pode ser visto da Terra. De seus 44 anos, Ñasaindy viveu mais de 16 na clandestinidade. Ela tinha apenas 1 ano e 8 meses quando foi deixada em Havana, aos cuidados da operária e ativista política brasileira Damaris Lucena, que estava exilada na ilha com 3 filhos - Denise, Adilson e Telma. O tempo passou e os pais de Ñasaindy jamais voltaram do Brasil. Em momentos diferentes, ambos foram mortos pela repressão da luta armada, assim como havia sido o marido de Damaris. Com a Anistia, a operária custou para arquitetar um retorno ao País que incluísse Ñasaindy. A solução possível envolveu documentos falsos. Assim, a filha de Soledad e José Maria desembarcou com outro sobrenome em 25 de abril de 1980, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Tinha 11 anos e não passou despercebida pela polícia política que monitorava Damaris.

Imagem rasgada - Por uma questão de segurança, Soledad, a mãe de Ñasaindy, cortou a única fotografia que a única fotografia que tinha com o pai, José Maria.

De plantão em Congonhas, o delegado José Ricardo Soares despachou no mesmo dia um telex para Romeu Tuma, diretor do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS). O delegado avisou que a operária tinha chegado no voo RG 871 da Varig em companhia de quatro filhos, a começar por Nasandy de Oliveira Lucena (com grafia errada do nome e o sobrenome de Damaris). Os dados foram transcritos em uma ficha remissiva da polícia. No telex, o delegado deu mais detalhes. “Informo que os referidos passageiros trouxeram quatro caixas com livros ideológicos e foram recebidos por grande comitiva, inclusive Ariston de Oliveira Lucena”, escreveu, referindo-se ao filho mais velho de Damaris, que tivera uma pena de morte comutada para prisão e passara na cadeia quase todos os anos que a mãe e os irmãos estiveram em Cuba. Para Ñasaindy, Ariston era o irmão que faltava conhecer, pois considerava – e ainda considera – Damaris como mãe. Só dois anos depois ela conheceu a família paterna de sangue. E passaram-se outros 14 para que começasse a existir legalmente no Brasil.

Dos tempos de bebê, Ñasaindy só tem uma fotografia com o pai. Na imagem, aparecem parte do rosto de José Maria e suas mãos enlaçando a filha. “A Soledad rasgou a foto, por uma questão de segurança”, diz Ñasaindy. “Mesmo em Cuba, já se desconfiava que existiam infiltrados entre os brasileiros.” Junto com Soledad, Ñasaindy não tem nenhuma fotografia. De origem distinta, mas unidos por ideais comuns, Soledad e José Maria se conheceram na ilha, onde Ñasaindy nasceu, em 4 de abril de 1969. Em junho do ano seguinte, José Maria decidiu voltar para o Brasil, para se alinhar à guerrilha contra o regime militar. Antes, ele telefonou para se despedir de Damaris, que conhecia de reuniões em São Paulo. “Nesse telefonema, ele pediu que a Damaris olhasse por mim”, conta Ñasaindy.

Naquela altura, José Maria era considerado pela Marinha como um “ex-militar”. Seus vínculos com a Força começaram ainda nos tempos de criança, quando ele morava com os pais e dez irmãos na cidade de Santa Luzia (PB). “Ele era um entusiasta pelo mar. Entrar para a Marinha sempre foi o sonho dele. Assim que terminou o antigo grupo primário, começou a estudar na Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará. Em seguida, foi para o Rio de Janeiro”, lembra um de seus irmãos mais novos, Paulo Maria Ferreira de Araújo, professor da Universidade de Campinas (Unicamp). Incorporado, José Maria vivia em um navio. Não demorou a engrossar a fileira dos marinheiros que reivindicavam o direito de se reunir, morar fora de navios e poder contrair matrimônio. Em 1962, José Maria estava entre os fundadores da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, entidade considerada ilegal pelas Forças Armadas.

Ficha do DEOPS - O pai de Ñasaindy foi condenado a mais de cinco anos de prisão por sua atuação na Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais.
Dois anos mais tarde, de fevereiro para março de 1964, visitou pela última vez a casa dos pais, onde posou para uma fotografia em uma Lambretta. “Ele estudava muito. Aliás, a maior parte da bagagem dele era de livros. Eu era sete anos mais novo. Fiquei fascinado”, conta Paulo. “Pelas restrições da época, também fiquei curioso em relação aos livros. Morava em uma cidade pequena, onde ler Marx e Hegel era como comer criancinha.” Nas conversas com a família, o futuro pai de Ñasaindy falou sobre a noiva, Iracema, que morava no Rio. No dia 20 de março, o marinheiro foi chamado por companheiros da associação que ajudara a fundar e se reunia na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio.


Anistiado por Goulart

Cinco dias depois, aconteceu a Revolta dos Marinheiros, como ficou conhecida a resistência a uma ordem de prisão determinada pelo ministro da Marinha, Sílvio Mota. Mesmo proibidos de comemorar o aniversário de dois anos da associação, mais de dois mil marinheiros e fuzileiros navais tinham se reunido na sede do Sindicato dos Metalúrgicos. O destacamento de fuzileiros navais enviado para prender os organizadores do encontro acabou aderindo ao movimento, com o apoio de seu comandante, o contra-almirante Cândido Aragão.

Na sequência, o presidente João Goulart proibiu a invasão do sindicato, o que fez o ministro da Marinha se demitir. Os manifestantes passaram por uma detenção simbólica, de poucas horas, e foram anistiados por Goulart. O episódio ajudou a aprofundar a crise entre as Forças Armadas e o governo federal, além de dar projeção a uma figura que mais tarde marcaria a vida de Ñasaindy: o Cabo Anselmo, como ficou conhecido o líder do movimento, José Anselmo dos Santos, que jamais passou de marinheiro.




 
Última visita - Dias antes da Revolta dos Marinheiros, em março de 1964, José Maria visitou a família, no interior da Paraíba. Nunca mais voltou.

José Maria escapou da prisão na revolta militar, mas acabou atrás das grades 15 dias depois do Golpe de 1964. Com um processo em andamento, foi libertado após sete meses, chegou a trabalhar como metalúrgico, mas acabou partindo para a clandestinidade. Entre março e abril de 1966, mandou uma carta para a família. “Dizia que não escreveria mais, para a segurança de todos, e que teria de sumir, de sair do País. Nesta carta, a última que recebemos, ele assinava como Miguel”, recorda seu irmão Paulo. “A noiva do José Maria, que se correspondia com minha mãe, não tinha notícias dele havia meses.” Julgado à revelia por ter ajudado a fundar a associação, José Maria foi condenado a cinco anos e um mês de prisão em junho de 1966. De acordo com documentos do Exército localizados pela Brasileiros no Arquivo Público do Estado de São Paulo, José Maria, assim como Cabo Anselmo, fizeram um curso de guerrilha em Cuba, em maio e junho do ano seguinte.

Ñasaindy acredita que Soledad e José Maria se conheceram em Santiago de Cuba, cidade da parte leste da ilha: “Um dos meus tios maternos, Alberto, me contou que eles estavam lá com outras pessoas da família. Soledad ensinava o idioma guarani para alguns camponeses e retornava sozinha à noite, pela mata. Meu pai então se ofereceu para acompanhá-la e, nesse processo, eles se apaixonaram”. Na época, Cuba era o destino de latino-americanos fugindo de perseguição política em seus países. Como José Maria, muitos brasileiros chegavam à ilha para participar de treinamentos de guerrilha. Predominava entre parte da esquerda brasileira a teoria do foquismo, inspirada no argentino Ernesto Che Guevara e desenvolvida pelo teórico francês Régis Debray. A ideia era criar focos de revolução no País, por meio de ações armadas, até que o movimento se alastrasse, provocando a derrocada do regime. Nesse contexto, e sabendo que o serviço de inteligência americano, a CIA, ainda operava na ilha, havia muitos subterfúgios. Tanto que, além da certidão de nascimento original, Soledad providenciou um documento falso para a bebê, com o nome Ñasaindy Sosa Del Sol. A trajetória de Soledad – e de sua família – também ajudam a explicar este tipo de medida.

Neta do escritor e filósofo espanhol Rafael Barrett (1876-1910), Soledad nasceu no Paraguai, onde o avô desenvolveu parte essencial de sua produção literária. As posições anarquistas de Rafael Barrett eram conhecidas, mas ele estava morto havia muito tempo quando o general Alfredo Stroessner inaugurou uma ditadura de 35 anos no Paraguai. Os pais de Soledad, por sua vez, eram militantes políticos antes mesmo de Stroessner tomar o poder, em 1954. Com frequência, mudavam de um país a outro para escapar de problemas políticos. Onde chegavam, a pequena Soledad se destacava. “Ela era uma criatura formosa, de cabelos cor de ouro, macios e longos, pele branca e sobrancelhas de cor castanha escuro quase negra”, registrou em depoimento sua irmã Nanny, já falecida. À medida que crescia, Soledad também passou a se destacar em manifestações políticas.

Em ondas curtas - Com o nome de Lurdes del Sol, Soledad trabalhava como redatora na Rádio Havana Cuba quando Ñasaindy era bebê.

Suastíca

Aos 17 anos, ela se tornou alvo de um atentado quando a família morava em Montevidéu, no Uruguai governado por um Conselho Nacional que abolira o cargo de presidente. Na noite de 1o de julho de 1962, no auge de uma série de atentados a comunistas e judeus, Soledad foi sequestrada por quatro homens. Enquanto circulavam de carro pela cidade, os sequestradores não pouparam golpes na tentativa de obrigá-la a repetir frases de louvor a Adolf Hitler. Antes de libertá-la, um último ataque: com canivete, gravaram duas suásticas nazistas nas pernas de Soledad. Fotografias das marcas hoje integram o acervo do Museu da Memória do Uruguai. Damaris, a operária brasileira que anos depois assumiria Ñasaindy como filha, lembra que Soledad não costumava exibir as suásticas: “Eu nunca vi, mas sabia que existiam”.

Depois que José Maria deixou Cuba para voltar ao Brasil, Soledad e Ñasaindy foram morar com Damaris. a menina passava a maior parte do tempo com Damaris. “Soledad trabalhava na rádio Habana Cuba. Além disso, era militante, participava de reuniões, de congressos”, explica Ñasaindy. “Damaris tinha chegado havia menos de um ano, passado por várias cirurgias para se recuperar da tortura. Estava em estado de repouso, embora com três filhos pequenos e uma agregada. Tinha ainda o Ariston, o filho mais velho, preso no Brasil. Ela se preocupava com o destino dele.” Para os filhos menores de Damaris, a chegada de Ñasaindy foi uma festa. “Ela era uma boneca. A gente adorava brincar com ela”, diz Telma.

Damaris também se apegou à menina que mal andava, mas já batia na porta de seu quarto, pedindo para entrar, mesmo quando Soledad estava em casa. E, como lembrou Ñasaindy, a operária se recuperava de uma sucessão de tragédias. Militante política experimentada, junto com o marido, Antônio Raymundo Lucena, Damaris havia trocado o Partido Comunista Brasileiro (PCB) pela luta armada. O casal integrava a linha de frente da organização clandestina Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). No meio de uma tarde de fevereiro de 1970, ela estava com a caçula Telma no colo, alfabetizando os gêmeos Denise e Adilson na sala, quando sua casa no Jardim das Cerejeiras, na cidade paulista de Atibaia, foi cercada pela polícia. Lucena abriu a porta e saiu. Estava armado.

Ninguém sabe ao certo o número de disparos feitos. “Fui o primeiro a sair para o quintal. Meu pai estava deitado ao lado do tanque, todo ensanguentado. Um miliciano chegou e deu um tiro de misericórdia na cabeça dele”, conta Adilson. “Depois, eles encurralaram a gente dentro de casa e ficaram discutindo se matavam ou não. Mais tarde chegou o capitão Mauricio Lopes Lima, da Operação Bandeirantes. Minha mãe começou a ser torturada ali mesmo, na frente da gente. Já era noite quando fomos para a delegacia. Estava tudo cercado pelo Exército. Levaram a Damaris embora e deixaram meus irmãos e eu num orfanato de Atibaia chamado Lar das Mariquinhas.” Nos dias seguintes, Adilson foi tirado duas vezes do orfanato e levado à casa onde morara: “Estava tudo revirado. Eles cismaram com um buraco que tinha no quintal, onde a gente queimava o lixo. Queriam saber para que servia”.

A caminho do Brasil - Soledad, de óculos, com a irmã Nanny, no Chile, em 1971, quando se preparava para implantar um núcleo de guerrilha no Nordeste.

No sofá do DEOPS

A casa do Jardim das Cerejeiras, na verdade, funcionava como um depósito da VPR. Afinal, Lucena era o armeiro da organização. Sob sua guarda a polícia encontrou um arsenal pesado, com 52 armas de fogo, entre elas dez fuzis FAL calibre 7,62 e quatro metralhadoras INA. Encontrou também grande quantidade de equipamentos médico-cirúrgicos, que seriam usados na montagem de uma unidade médica. O material apreendido foi descrito em minúcia nos autos policiais, exceto os valores em papel moeda. “Tinha uma sacola com muito dinheiro da organização”, lembra até hoje Damaris. O certo é que a operária estava sem nenhum tostão quando foi banida do País com os três filhos, em troca do cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi, que havia sido sequestrado.

Como tinha ficado menstruada na sede da OBAN, a roupa de Damaris estava imunda. No sábado 14 de março de 1970, ao se preparar para embarcar em um Caravelle da Cruzeiro do Sul em direção ao México, ela ganhou roupas da socióloga Eliana Rollemberg, com quem dividia cela. Seus três filhos menores tinham sido levados para a sede do DEOPS, onde foram fotografados em um sofá do andar da diretoria. A imagem encontra-se no acervo da polícia, no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Telma, a filha mais nova de Damaris, se recorda bem da situação, pois ganhou um boneco do capitão Mauricio, que integra a relação de torturadores do projeto Brasil: Nunca Mais. “O boneco que ele me deu era cor de rosa, de plástico, cheio de balinhas. Denise, minha irmã mais velha, jogou todas as balas fora, com medo de que estivessem envenenadas”, lembra Telma.

Após serem fotografadas, as crianças foram reunidas à mãe, pela primeira vez depois do cerco à casa de Atibaia. Damaris ainda trazia marcas da tortura. Seu filho Adilson conta que as roupas de Damaris eram mais curtas do que as habituais: “E ela estava sem calcinha. A dela tinha ficado imprestável. Passou a viagem inteira preocupada, segurando a saia”. Poucos dias depois de desembarcar no México, eles seguiram para Cuba. Na ilha, Damaris reencontrou José Maria, soube que ele era pai de Ñasaindy, e prometeu cuidar da menina quando o marinheiro apostou na volta ao Brasil, em junho daquele mesmo ano.

Mãe e militante - Damaris, hoje com 86 anos, criou Ñasaindy desde que ela estava com 1 ano e 8 meses. Figura histórica das resistência à ditadura, ela foi presa, fichada e torturada após o cerco que culminou com a morte do marido, Antônio Raymundo Lucena.

Segredos no porão

José Maria foi preso três meses depois em circunstâncias até hoje não esclarecidas. Entre os presos políticos que o viram sob tortura nas dependências de um órgão vinculado ao Exército, o DOI-CODI de São Paulo, estava Ariston, o filho mais velho que Damaris deixara no Brasil. Ariston, que faleceu de problemas cardíacos agora em maio de 2013, costumava relatar que o marinheiro chegou a conversar com ele, mas não comentou nada sobre a filha deixada em Cuba. Nos porões do regime, ninguém falava sobre a vida pessoal. E aqueles dois tinham motivos de sobra para guardar seus segredos. A prisão de José Maria não estava legalizada. Ariston, com apenas 17 anos, tinha escapado de um centro de treinamento no Vale do Ribeira com Carlos Lamarca, o capitão que desertou do Exército para aderir à luta armada. Na fuga, os guerrilheiros mataram um tenente da Polícia Militar, o que acabou valendo a Ariston uma sentença de morte, mais tarde comutada para prisão.

Enquanto isso, em Cuba, a pequena Ñasaindy continuava cada vez mais sob os cuidados de Damaris. “Não sei se é lembrança ou uma cena imaginada, mas me recordo de estar no colo da Damaris, olhando para a Soledad. Mesmo muito pequena, talvez eu tenha percebido que ela estava indo embora”, diz Ñasaindy. A decisão de Soledad de viajar para o Brasil estava associada ao Cabo Anselmo, o líder da Revolta dos Marinheiros da qual José Maria participara em 1964.

Rumo ao exílio - Filhos de Damaris, Adilson, Telma (com o boneco) e Denise foram fotografados pela polícia no DEOPS, antes de serem banidos do Brasil com a mãe.
  
Carteira Preta

No papel de agente infiltrado da polícia, Cabo Anselmo convocara militantes em Cuba para retomar ações guerrilheiras no Brasil. Soledad aderiu ao chamado Grupo Primavera, que deveria estabelecer um núcleo da VPR no Nordeste. Era uma armadilha preparada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, que decidira exterminar de vez com a guerrilha urbana. Depois de passar pelo Chile e Uruguai, Soledad chegou ao Brasil, onde acabou se envolvendo amorosamente com Cabo Anselmo. Estaria grávida dele quando se tornou uma das vítimas do esquema, no começo de janeiro de 1973.

Há duas versões para a morte da mãe de Ñasaindy. Pela versão oficial, Soledad estava entre os seis “terroristas” mortos durante um tiroteio na Chácara São Bento, em Recife. É o que afirma o delegado Carlos Alberto Augusto, conhecido como Carteira Preta, hoje lotado na cidade paulista de Itatiba, que atuava como agente policial infiltrado na célula da VPR, ao lado de Cabo Anselmo: “Eu usava o codinome Cesar, porque todos os terroristas, por motivo de segurança, tinham de adotar outros nomes. Fui designado por meus superiores, que cumpriam ordens do governo do Estado, a fazer essa investigação de repressão e combate a terroristas”. O delegado garante que não participou diretamente do episódio: “Eu e o Anselmo não estávamos no local dos fatos. Pelo que fui informado depois, houve um cerco na área de guerrilha e reação na hora da prisão. Os órgãos de repressão tinham interesse em pegá-los vivos, para obter informações. Quando os policiais entraram na área, foram atacados por um cachorro. Um dos policiais disparou um tiro e os terroristas reagiram. Eles sabiam os riscos de morte, sabiam que estavam traindo a pátria”.

A versão oficial foi contestada ainda em janeiro de 1973 por duas testemunhas. Dona da butique Chica Boa, em Recife, a comerciante Sonja Maria Cavalcanti de França Lócio denunciou que Soledad foi presa na sua frente, junto com Pauline Reichstul, irmã do ex-presidente da Petrobras Henri Philippe Reichstul. Soledad estava na butique, onde costumava deixar bordados em consignação, quando ela e Pauline foram levadas por cinco homens armados, à paisana. O marido de Sonja tentou registrar o sequestro à polícia, mas foi aconselhado a esquecer o assunto. No dia seguinte, o casal, que não tinha nenhuma atuação política, viu no jornal as fotos de Soledad e Pauline entre os “terroristas mortos em tiroteio”. Sonja procurou então a Ordem dos Advogados do Brasil. Seu depoimento só começou a ficar conhecido após a redemocratização do País.

Advogada de um dos mortos na chácara, Mércia de Albuquerque Ferreira é a outra testemunha que contestou a versão oficial. Ela faleceu há dez anos, mas, em 1995, gravou em vídeo, na presença do então secretário de Segurança de Pernambuco, o relato que repetia desde janeiro de 1973. A advogada afirmava que, ao saber das mortes, conseguiu licença para entrar no necrotério. Lá, encontrou os seis corpos, todos inchados, “muito estragados”, com cortes e marcas de pancadas: “Em um barril estava Soledad Barrett Viedma. Ela estava despida, tinha muito sangue nas coxas, nas pernas, e, no fundo do barril onde se encontrava, também havia um feto. Eu fiquei horrorizada. Como Soledad estava em pé, com os braços ao lado do corpo, eu tirei a minha anágua e coloquei no pescoço dela. Era uma mulher muito bonita”. 

Ñasaindy tinha quase 4 anos quando Soledad foi morta. “Até uma certa idade, eu era muito chorosa. Depois, criei algumas doenças. Meu pescoço ficava cheio de bolinhas com pus”, conta. Ela estava um pouco mais velha quando assimilou a morte dos pais, mas ainda é marcada pela ausência, principalmente da mãe. “O que me faz sentir muito mal é o abandono. A Soledad fez uma escolha. Naquele momento, a luta era muito importante para ela”, diz Ñasaindy. “Para mim, era difícil juntar a imagem de deusa que me passavam dela com o abandono.”

Infância na ilha - Ñasaindy, na época em que ficava com o pescoço cheio de bolinhas de pus (acima), e, com outras exiladas brasileiras, na festa de 15 anos de Denise, a filha mais velha de Damaris.

Sem RG

Quanto à sua trajetória, Ñasaindy comenta que fez pesquisa a vida toda, “para juntar os caquinhos” da própria identidade. Não gostou nem um pouco de entrar com documentos falsos no Brasil: “Tudo o que não era verdade me incomodava”. Estava há quase dois anos em São Paulo quando chegou à casa em que morava e encontrou duas pessoas que não conhecia: “Eu logo vi que aquilo tinha a ver comigo”. Eram sua avó paterna e seu tio Paulo. A família de José Maria esperava por ele desde 1966, quando recebera sua última carta. “Meu pai morreu em 1973, na ilusão de que a qualquer hora ele voltaria”, diz Paulo.

Quatro anos antes da morte do pai, quando foi estudar Farmácia e Bioquímica em Fortaleza, Paulo tinha começado a procurar pelo irmão. Durante uma viagem ao Rio, em 1970, se deu conta de que existiam muitos desaparecidos no País. Intensificou seus contatos com familiares de presos políticos quando começou a fazer pós-graduação na Unicamp. Com a volta dos exilados, a partir de 1979, ele conseguiu reconstituir parte da trajetória do irmão. Só teve certeza de que o José Maria não voltaria quando o escritor Paulo Conserva publicou um artigo no jornal A União, de João Pessoa (PB), relatando que ele havia sido assassinado no DOI-CODI de São Paulo. Ao procurar o escritor, Paulo soube que José Maria tinha uma filha em Havana: “Era uma época difícil. Ninguém abria nada para mim. Todos estavam com receio do Cabo Anselmo. Em 1982, quando eu organizava a viagem para buscar a filha de José Maria em Cuba, soube que Ñasaindy vivia em São Paulo.”

Para chegar à casa de Damaris, Paulo teve de acionar os contatos que cultivara no decorrer dos anos. Só encontrou Ñasaindy depois de se reunir com Ariston, o filho mais velho de Damaris, no escritório de um advogado: “Até hoje me dói muito lembrar a situação precária em que viviam. A Damaris foi ser doméstica e todos os filhos trabalhavam e estudavam à noite. Quando conheci a Ñasaindy, ela vendia balas numa galeria, na região da Avenida Paulista”. Pouco tempo depois, quando terminou a oitava série, Ñasaindy parou de estudar, por causa de sua condição de clandestina: “Na escola, viviam me pedindo o RG, que eu não tinha como tirar. Chegou uma hora que não deu mais para fazer matrícula”
"Eu não sou frágil. Sou muito mais resistente do que imaginava. Esses processos foram duros, mas me fortaleceram muito". Ñasaindy Barrett de Araújo, na universidade de Campinas onde estuda.

Nome inspirador

Nessa época, Ñasaindy também já tinha começado a manter contatos com a família de Soledad. Com o passar do tempo, ela estreitou os vínculos com Paulo, o tio paterno. “Ele fez a diferença na minha vida. É o pai que eu não tive”, diz Ñasaindy. Paulo, por sua vez, esperou anos para “assumir” integralmente a sobrinha: “Criada em Cuba, com outra mentalidade, ela era muito independente, desenvolta”. Quando Ñasaindy estava com 27 anos, Paulo contratou um advogado para regularizar a situação da sobrinha. Ñasaindy passou por momentos de crise. “Eu tinha medo de que a minha mãe fosse penalizada de alguma maneira”, afirma, referindo-se a Damaris.

Hoje naturalizada brasileira e formada em Pedagogia, Ñasaindy faz um curso de extensão na Unicamp, onde foi fotografada para esta reportagem, e analisou a vida em retrospectiva: “Eu não sou frágil. Sou muito mais resistente do que imaginava. Esses processos foram duros, mas me fortaleceram muito”. Embora tenha se aliado a Paulo na busca pelos restos mortais dos pais, jamais os encontrou. Ambos constam da lista de desaparecidos políticos do Brasil. Mãe de quatro filhos, Ñasaindy mora em Campinas com os dois mais novos, Habel e Dina. A segunda filha, Ivich, cursa Cinema na Universidade Federal da Integração Latino-Americana, em Foz do Iguaçu (PR). A mais velha, Yalis, estuda Rádio e TV em São Paulo. Nascida nos tempos em que Ñasaindy vivia com documentação falsa, Yalis assina Lucena, como Damaris. O nome da Ñasaindy, por sua vez, inspirou Samuel Ferreira, que também passou parte da infância exilado em Cuba, na hora de batizar a própria filha. Assim, orgulhosa de carregar um nome “com um significado muito bonito”, vive em São João de Meriti (RJ), a estudante Ñasaindy Ferreira, de 18 anos. Detalhe: as duas Ñasaindys ainda não se conhecem.


Reportagem: Luiza Villaméa
Revista Brasileiros (29 de julho de 2013) 
Postado por Francisco Roberto Ferreira

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Marcas da Ditadura

A falsa Certidão de Óbito de
José Maria Ferreira Araújo


A certidão de óbito de José Maria Ferreira de Araújo foi assinada pelo médico Sérgio Belmiro Acquesta, personagem típico de um país à sombra do arbítrio.


Paulistano de ascendência italiana, formado em medicina pela primeira turma do campus de Sorocaba da PUC/SP em 1956. Acquesta ingressou no departamento médico da Villares nos anos 60. Permaneceu até o início da década de 90. No mesmo período fez carreira como legista no Instituto Médico-Legal de São Paulo.

Nos plantões do IML, atuava nas necropsias de presos políticos em companhia de outros colegas citados no relatório do projeto Brasil Nunca Mais, levantamento coordenado pela Arquidiocese de São Paulo sobre a tortura praticada na ditadura.

No laudo de José Maria Ferreira Araújo, codinome Edson Cabral Sardinha, consta que o mesmo faleceu ao dar entrada na Delegacia Distrital, em decorrência de um mal súbito,  quando foi preso pela Operação Bandeirantes.


Cópia do Laudo Médico da causa morte de José Maria, assinado pelo Dr. Acquesta.



Postado por Francisco Roberto Ferreira.
Fonte: Revista Época (10 de março de 2003, p. 64)

terça-feira, 13 de março de 2012

O PICO DO YAYU

Significado da palavra Yayu


Foto do Pico do Yayu visto do Monte de São Sebastião - Santa Luzia - PB

Em Santa Luzia há um morro isolado, que tem o nome de Yayu, nome esse perdido na origem dos tempos.
Há, por outro lado, uma lenda que diz ter sido uma mulher indígena que pronunciou as duas sílabas no instante da morte.
Essa mulher, deixando-se ficar no que pensava ser sua fortaleza, após o banho de sangue que Teodósio de Oliveira Ledo deu ao seu povo, empurrando-o sertão a dentro, é algo fascinante.
Posso senti-la, no horror de sua solidão, olhando estrelas ou curtindo os meses de verão, no abrigo de uma choça rústica, descendo, protegida pela escuridão da noite, à procura de comida, à procura de água, até que os brancos a pressentiram e a emboscaram e lançaram contra seu frágil corpo de mulher vaqueiros equipados pra romper juremais - fala-se que Yayu significa, textualmente, morro espinhento ou morro parecido com espicho, que seu formato sugere - e cães de caça, queilo era um animal predatório a ser caçado.
Subindo o morro, perseguida, seu coração solitário arrebentou e, caída, já na presença de seus perseguidores, apontou para o pico do morro e exclamou: "Yayu". E morreu.

ALI, DEUS.
Bom. Não sei se há tradução, realmente, para as sílabas pronunciadas por uma mulher anônima, sua morte seria indiferente à História não as houvesse pronunciado.
Mas é muita coincidência em línguas antigas, Sânscrito ou outras línguas mortas, que Ya seja um advérbio que significa ali, lá; e Yu, "O Ser Supremo" ou a "mãe de todas as coisas que veio do não ser", ou, ainda, o Ser Eterno dos taoístas, também traduzido por Mistérios. Em última análise, Deus. Ali, Deus - seria a tradução, complementada pelo braço estendido da mulher, apontando o pico do morro, muito alem do lugar onde caiu para morrer, acima do qual só existia o céu azul, salpicado de nuvens brancas.
Aquela mulher ao se deixar ficar, sozinha, no morro desolado, talvez estivesse a procura do Mistério, do Yu. Talvez. Dentro dela havia perguntas que não tinha como responder: Por que a destruição de gente, aquele holocausto, por que aquilo tudo? Ali, Deus. Talvez o que tinha vontade de dizer àqueles bárbaros brancos que destruiram sua gente, impiedosamente: ali, Deus.
Ou talvez fosse a resposta que procurava aos seus próprios anseios, só encontrada na hora derradeira: ali, Deus.

Texto original


Texto e foto - acervo de Mário Ferreira de Medeiros.

sábado, 3 de março de 2012

SANTA LUZIA DO QUIPAUÁ

Vale do Sabugy - uma fraude orográfica


Antigamente, quando o território do município de Santa Luzia englobava os atuais municípios de São Mamede, Várzea, São José do Sabugy e Junco do Seridó, fazia sentido fazer uma referência ao Rio Sabugy, seu pretenso maior curso d'água.

O equívoco, provavelmente, provem do fato de um antigo mapa do IFOCS, de 1913. Elaborado por alguns ingleses, mostrava o Rio Quipauá como afluente do Rio Sabugy.

Atualmente, verificando mapas do modelo de elevação topográfica, gerado a partir de topografia digital SRTM - Shuttle Radar Topography Mission, um programa americano que mapeou a Terra em detalhes (nessa versão, com resolução de terreno de 90 X 90), no ano de 2005, constata-se que os dois rios não se tocam.


Mapa 1


Mapa 2

O Quipauá tem sua origem na confluência dos rios Chafariz, do Saco e Riacho do Fogo, aproximadamente onde foi construído o açude José Américo (Açude Novo), seguindo ao norte passando em Ouro Branco - já no Rio Grande do Norte - e desembocando no Rio Seridó, pela barra Nova, no município de Caicó, onde serve o açude Itans.

Já o Sabugy nasce na Borborema, no território de São Mamede, segue por Ipueiras, São João do Sabugy e desemboca no Seridó muito a jusante do Açude Itans, perto de São Fernando, já a procura do Rio Piranhas.

Mapa 3

Tabela de cores de acordo com a topografia do terreno.

Os tons vermelhos variam em torno de 900 - 800m de altitude (na região do Pinga e adjacências, por exemplo).

Os tons azulados variam entre 300 e 250m de altitude.

No Mapa 1, ver-se a serra do Teixeira, cuja altitude máxima é de 1198m (Pico do Jabre).




João Marinho de Morais Neto (geólogo)

Mário Ferreira de Medeiros (engenheiro agrimensor)

José Mário Ferreira (engenheiro civil)

Carmélio Reynaldo Ferreira (jornalista)

Francisco Roberto Ferreira (geógrafo)

segunda-feira, 7 de março de 2011

NOS CARNAVAIS PASSADOS



Nos Carnavais Passados




Não podemos esquecer uma coisa que está documentado em fotografias: nosso pai foi um grande folião. Eu não me lembro dele brincando carnaval (por que parou? parou por que?), mas lá casa tem muita foto dele, moço participando de blocos ou fantasiado. Lembro de fantasias de Zorro, Batman e, salvo engano, até de Tarzam. E, no carnaval, quando não era proibido, ele até nos abastecia de lança-perfume.
Acho que o menos carnavalesco da família sou eu. Nem de música de carnaval eu gostava, até que por volta de 1999, participando de um grupo de discussão de música, os integrantes começaram a lembrar as velhas marchinhas e aí me veio um estalo: a causa da minha rejeição à música era o hábito de "mãinha" acordar a gente, em Santa Luzia, com o rádio sintonizado nas rádios de Recife, que tocavam muito Capiba, Nelson Ferreira, Claudionor Germano e Expedito Baracho (o dele é com X). E aí, na lembrança, o que parecia ruim, na verdade, era muito bom. Agora, quando toco esses discos que sai catando com avidez, sinto saudade dos cheiros que completavam essa sena: o café sendo coado e do leite derramando na chapa do fogão.
E aí, nos discos, fui descobrindo que o poeta escrevera:
(...)
Até as viuvinhas
do artista James Dean
vieram incorporadas
hoje a noite está pra mim
E eu entendia:
(...)
Até as viuvinhas
do artista James Dean
moral em concordata
hoje a noite está pra mim
Fazer o que? Eu estava com sono, sendo acordado à força.
Carmélio Reynaldo Ferreira

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Jeová Batista e o Museu de Santa Luzia

O Museu de Santa Luzia abriga importantes peças históricas, é formado por um riquíssimo acervo cultural. Foi criado oficialmente no dia 24 de novembro de 1971 pela Prefeitura Municipal, com o objetivo da preservação das obras de artes do município e resgatar o Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Ecológico da cidade.

Jeová Batista de Azevedo foi um dos fundadores do museu de Santa Luzia, que com muito zelo e estima conseguiu formar um acervo estimado em mais oito mil peças encontradas na região do Seridó e demais circunvizinhas.

Em 1974, a coordenação estadual do MOBRAL/PB inaugurou seu posto em Santa Luzia e, entre os programas implantados, o que mais sensibilizou a comunidade, sem dúvida, foi aquele voltado para o patrimônio histórico e artístico.

Decorrente da importância do museu na vida do município surgiu à idéia do professor Renault Vieira de Souza de criar a Fundação Museu Comunitário de Santa Luzia, sociedade civil sem fins lucrativos, como instituição mantedora do museu e da biblioteca, constituída em 1984, voltada principalmente para a arte e a cultura. Pesquisa e história regional, tendo Jeová como Diretor Cultural.

No seu acervo consta uma pedra com a pegada de dinossauro proveniente do Vale dos dinossauros localizado no município de Souza. Há também machados de pedras (possivelmente da era da pedra polida), também conhecidos como pedras de corisco ou machado indígena, louçaria européia e armas de jagunços.


Outras peças importantes destacam-se no acervo os vários instrumentos musicais como um bonito violino da marca "Gianini", com selo "Stradivarius". Foi fabricado em madeira nacional, o Salgueiro, e seu arco também é de matéria brasileira, a Peroba. Esse violino pertenceu ao fazendeiro Manoel Abel.

Outro instrumento de grande valor é um alaúde, de mais de 100 anos, de origem napolitana, doado ao museu por Dona Luzia Araújo. Esse instrumento foi de grande sucesso em fins da Idade Média. No alaúde lê-se a inscrição: "Arilletti Umberto - Nápoles.

Um clarinete, também com mais de 100 anos, que pertenceu a Nestor Tavares Nóbrega, fabricado em Ébano, de marca francesa. Uma flauta, que pertenceu a Iracema Araújo, fabricada em Paris, também com mais de um século. Flauta Transversal, de Joaquim Machado da Nóbrega, "Seu Joca", fabricado em Craviuna, pelo seu proprietário.

Um bombardino, aparentando ser muito antigo, estranhamente muito austero, de um dourado puxado ao vermelho com uma amassadura em sua campana. Segundo Jeová, esse instrumento pertenceu ao maestro Ezequiel Fernandes, uma figura lendária e muito querida na cidade. Quando Antônio Silvino invadiu Santa Luzia, foi a sede da filarmônica e ordenou a depredação dos instrumentos. O instrumento foi amassado em violentos golpes contra o solo, mas posteriormente passou por um trabalho de recuperação, embora permaneçam as marcas da violência.

Muitos outros objetos são encontrados no museu. Como um elegante tinteiro , de um refinado vidro esverdeado, com arabescos em baixo relevo folheados a ouro. Foi doado por Brasília Medeiros. Contava Dona Dalila, sua mãe, que o tinteiro foi trazido por seus avós quando chegaram da Europa para Olinda há muito tempo atrás. Tinham eles um pequeno animal de estimação, um inteligente macaco que certo dia desapareceu da Casa Grande. Tempos depois o macaco reapareceu. Trazia consigo, guardado com muito ciúme, o belo tinteiro verde, com filetes dourados.

O visitante do Museu de Santa Luzia tem para apreciação um acervo diversificado e bem organizado estruturalmente dividido em coleções. A de "Arte Sacra", tais como pia batismal, imagens, sinos e objetos litúrgicos. À coleção "Armaria", formada por armas brancas, espingardas, garruchas, "Munições", com peças utilizadas na Revolução de 1930. "Numismática", formada por moedas de diversos períodos: colonial, do Império (Primeiro e Segundo Reinado), da República - a moeda mais antiga data de 1715.

A coleção "Material Lítico", composta por minérios extraídos na região por garimpeiros e pesquisadores: berilo, turmalinas, mica, perita, amianto, colombita, quartzo, etc. "Arte Indígena", arcos, flechas, lanças, etc. "Máquinas de Costura", diversas épocas. "Instrumentos Musicais": formada por instrumentos antigos que pertenceram aos membros da Banda Musical 23 de Maio, de Santa Luzia, fundada em 1874.

"Apetrechos": objetos de indumentárias, bolsas, sapatos, carteiras, cintos, fivelas, etc. "Cerâmica": material proveniente de demolições de casas antigas da cidade e, também, de cerâmica, utilitária e de adorno produzidas na região. A coleção "Mobiliário", com peças de períodos diversos que remontam à criação do Município. "Documentos": certidões, textos referentes a história do Município. "Iconografia": fotos, retratos de figuras, prédios, fatos da cidade e do Estado. "Diversos": constituída por variadas peças como discos, ferramentas, lamparinas, etc.

Tudo bem explicado, assim, deixa a impressão de que Santa Luzia conta com um Museu ao estilo das cidades barrocas mineiras, assistidas pela Funarte e outras fundações que cuidam da memória nacional. Na verdade, a singela cidade sertaneja, cercada de água por todos lados, conta apenas com a forma real-mágica de encarar a vida, do marcante personagem Jeová Batista, o seu Museu Municipal.

O Museu é dividido em 16 sessões, o que faz com que os assuntos se misturem, já que conta apenas com oito salas. O prédio pertencia ao antigo Posto de Saúde, e não passou por nenhuma adaptação para o funcionamento de um museu. Não há a mínima condição de segurança, não só contra roubos, também contra agentes naturais.

E pelas palavras do museólogo Jeová Batista: "Talvez o nosso acervo, tudo junto, não valha, em moeda corrente, o preço de um milhão. Mas aqui está viva, toda a História de uma cidade, que não é tão antiga quanto Roma, mas que já não é tão nova, como Brasília, por exemplo. E é para isso que estamos trabalhando para preservar a memória do homem da terra".

O Museu hoje se chama Museu Jeová Batista, em homenagem, àquele que muitos anos cuidou das peças e do acervo do museu por muitos anos.


Fonte:

Jornal A UNIÃO (João Pessoa, 27 de maio de 1984).

Reportagem: Armando Marinho.

Fotos: Ernani de Souza (Jeová) e Francisco Roberto (machado de pedra).

Redação Final: Francisco Roberto

terça-feira, 20 de julho de 2010

Santa Luzia do Quipauá


Antigamente, quando o território do município de Santa Luzia englobava os atuais municípios de São Mamede, Várzea, São José do Sabugy (!) e Junco do Seridó, fazia sentido se fazer uma referência ao Rio Sabugy, seu pretenso maior curso d'água.
O equívoco, provavelmente, provém do fato de um antigo mapa do IFOCS, de 1913. Elaborado por alguns ingleses, mostrava o Rio Quipauá como afluente do Rio Sabugy. Verificando os mapas atuais, mesmo com o olho de leigo, constata-se que nem uma gota d'água do município de Santa Luzia vai para o Sabugy.
Os dois rios nem se tocam!
O Quipauá tem sua origem na confluência dos rios Chafariz, do Saco e Riacho do Fogo, mais ou menos onde foi construído o açude José Américo (Açude Novo), seguindo em direção ao norte passando por Ouro Branco - já no Rio Grande do Norte - e desembocando no Rio Seridó, pela Barra Nova, no município de Caicó, onde serve o açude Itans com a água da terra de Isidoro Ortins e Geraldo Ferreira da Neves. Daí, talvez, a indissolúvel ligação do povo, além do fato de serem todos Medeiros, portanto, parentes.
Já o Sabugy nasce na Borborema, no território de São Mamede, segue por Ipueiras, São João do Sabugy e desemboca no Seridó muito a jusante do Açude de Itans, perto de São Fernando, já a procura do Rio Piranhas.
Historicamente existem inúmeras referências sempre ligando Santa Luzia do Quipauá. Por exemplo, no livro de Olavo Medeiros, Cronologia Seridoense, e em outras menos célebres. Aliás, dizem, está até na própria sertidão de nascimento da cidade, quando Geraldo Ferreira das Neves cedeu um pedaço de terra para o patrimônio da igreja, mas isto é assunto para historiadores.